Em nossas tentativas de desenhar, um grande problema que enfrentamos foi o mal uso da mídia. Tentávamos criar efeitos de pele reais utilizando apenas lápis e um desenho incompleto como referência. Com o tempo percebemos que isto significava não aceitação de nós mesmos.

As formas de manifestação da mente humana apresentam limitações naturais. Ninguém consegue expressar exatamente o que pensa. Da parte do cérebro onde são computados os pensamentos à parte mecânica que articula nossas mandíbulas, as informações neuronais percorrem um grande caminha por onde existem desgastes naturais daquilo que gostaríamos de expressar. Desta forma, se tentássemos expor muitos detalhes e exigíssemos perfeita compressão daqueles que nos ouvem, provavelmente entraríamos em uma empresa falida.

O contorno deste problema, em nossa opinião, exige uma compreensão das nossas limitações e engenharia para lidar com elas. Antes de comunicar, importa saber o que pode ser comunicado com os meios que dispomos.

No desenho, esta teoria implica em conhecer a mídia com que vamos trabalhar. Assim, perguntar que efeitos podem ser feitos com os lápis, tintas e solventes que temos. Tentar copiar uma fotografia perfeitamente em um papel chamex utilizando apenas um lápis pode ser muito difícil para nossa condição de aprendiz.

Este conhecimento obtido no desenho se aplica em nossa vida como um todo a partir do momento que nos voltamos a nós mesmos e nos perguntamos se não estamos tentando realizar mais do que nossos braços pequenos permitem. Isto não significa virar conformistas e estagnar no pouco. Mas aprender a realizar com o pouco que somos ou possamos dispor. Por vezes, mesmo limitados, conseguimos agradar, pelo simples fato de partirmos da auto-aceitação.

Não queremos passar por hipócritas. Confessamos que se pudéssemos, nós gostaríamos de ter carvões e papéis caros e desenhar como o David Kassan. Mas é fato que temos de começar em algum momento e de alguma forma. Para que o momento seja agora, acreditamos que comprar materiais caros, logo de cara, leva o aspirante a desenhista a cair no Mal do Aviso de Regime. Este mal foi observado, estudado e analisado metodicamente por Arthur Santana (em suas prolíferas horas vagas), que diz o seguinte:

“Sabe por que não quero que vocês saiam por aí dizendo que tão fazendo regime? Porque a aprovação que os outros vão dar para a atitude, fará com que o sistema de recompensa de vocês seja ativado. Desta forma, vocês vão se sentir bens consigo mesmos e no final vãoacabar esquecendo o regime porque, no fundo no fundo, a maioria das pessoas que fazem regime buscam algum tipo de (auto) aprovação e se a tiverem antes de emagrecer, pior pra elas mesmas”.

Um problema parecido ao que sofrem os amigos dos alimentos, sofrem os desenhistas iniciantes. Ao comprar lápis de madeira alemã, tinta belga e borracha de vinil, o sistema de recompensa do aprendiz pode ser tão prazeirosamente ativada que ele perde a necessidade de desenhar de fato.

Portanto, se não quisermos estar sempre avisando (para os outros e para nós mesmos) que estamos “começando” a desenhar, sugerimos esquecer isto por enquanto, pegar uma grafite barata e copiar Rafael na primeira folha limpa que aparecer na frente.

PS: Nós passamos por este problema quando fizemos mamãe comprar tinta, canson, curvas francesas, bicos de pena, etc para depois deixar tudo de lado.

primeira expressão

Por que será que toda vez que alguém fala em se expressar é para mostrar um sentimento de revolta, preocupação, raiva, ou outra coisa triste? Eu não vou questionar os motivos, pois também tenho algo não muito alegre para mostrar.

A figura acima foi preparada numa noite de domingo depois que terminei de ler algo sobre Oskar Kokoschka. Fiquei com vontade de borrar um pouco de cor e de escrever o texto que vai nos cantos da folha e são reproduzidos abaixo.

“Não há pior prisão que a imposta sobre si mesmo. Olhar braceletes e enxergar algemas é um mal do ansioso. As cores são formas e a pressa deforma. É tudo simples e igual. Sombras contornos, números e mulheres, reunidos em um banho de águas de entendimento.”

“Por algum motivo este desenho me preocupa como este fantasma. Más é bom vê-lo e saber que está lá, encará-lo. O fantasma sou eu ainda em incompreensão. Onde deveria haver apenas a tranquilidade da verdade, existe a névoa que com calma há de ser dissipada.”

Pra mim, parece óbvia toda a auto-repressão expressa neste desenho e texto. Por exemplo, a figura à esquerda era originalmente um homem, mas tornou-se uma mulher para incomodar menos…

Depois de desenhar, fui dormir e tive um sonho num lugar que parecia uma escola velha, com cadeiras espalhadas e com alguns jovens. Eu me lembro de dizer para uma garota loira que bebia alguma cachaça e olhava as estrelas com uma amiga que depois que eu falei que gostava dela, nunca mais a tinha visto sorrir. Acho que fiquei preocupado de tê-la feito sofrer de alguma forma. Todo mundo no lugar parecia triste. Tinha a impressão de serem pessoas racionalmente inteligentes, mas ignorantes das obrigações da vida… O sonho termina depois que notei que estava sendo seguindo por uns gatinhos estranhamente peludos… E foi assim que acordei gripado.

Post Scriptum:

*Renata me disse já ter sonhado com o mesmo lugar.